Capital de Giro

Conceito de Capital de Giro

Para seu funcionamento, as empresas utilizam recursos materiais de renovação lenta (imóveis, instalações, máquinas, equipamentos), denominados capital fixo ou permanente, e recursos de rápida renovação (dinheiro, créditos, estoques) que formam seu capital circulante ou capital de giro, também chamado de ativo corrente.

Capital de giro, portanto, é o ativo circulante que sustenta as operações do dia-a-dia da empresa e representa a parcela do investimento que circula de uma forma a outra, durante a condução normal dos negócios.

Assim,

 CAPITAL DE GIRO = Ativo Circulante

Uma administração ineficiente do capital de giro poderá afetar de forma dramática o fluxo de caixa da empresa. O volume de capital de giro utilizado por uma empresa depende de seu volume de vendas, de sua política de crédito comercial e do nível de estoques que ela precisa manter. Duas considerações muito importantes na administração do capital de giro são os ciclos econômicos e a sazonalidade especifica de determinados negócios.

As indústrias normalmente possuem maior proporção de ativos permanentes em relação aos ativos totais, e tendem a concentrar-se nas necessidades de caixa a longo prazo; as empresas comerciais trabalham com maior percentagem de capital de giro e concentram-se principalmente nas contas a receber e nos estoques, buscando mais os financiamentos a curto prazo; as empresas de serviço, por sua vez, possuem poucos ativos permanentes e enfocam basicamente as contas a receber.

O capital de giro necessita de recursos para seu financiamento, :.; rno acontece com o capital permanente. Assim, quanto maior for o capital de giro, maior será a necessidade de financiamento, seja com recursos próprios, seja com recursos de terceiros.

Necessidade de Capital de Giro

 O correto dimensionamento da necessidade de capital de giro é um dos maiores desafios do administrador financeiro. Elevado volume de capital de giro irá desviar recursos financeiros que poderiam ser aplicados nos ativos permanentes da empresa. Todavia capital de giro muito reduzido restringirá a capacidade de operação e de vendas da empresa. A necessidade de capital de giro pode ser estimada de dois modos:

a)    Baseada no ciclo financeiro

b)    Utilização dos demonstrativos contábeis (balanço patrimonial)

Cálculo com Base no Ciclo Financeiro

Esse método é aplicável a uma empresa em fase de implantação, por ainda não dispor de demonstrações contábeis. A necessidade de capital de giro corresponde ao caixa operacional, ou seja, ao montante mínimo de recursos financeiros necessários para garantir a operacionalidade da empresa. Trata-se de uma forma simples de se efetivarem os cálculos, pois o método pressupõe que as despesas projetadas anuais são uniformemente distribuídas ao longo do ano.

Cálculo com Base no Balanço Patrimonial

O capital de giro líquido (CGL) é definido como a diferença entre o ativo circulante e o passivo circulante. Porém, nem todo o valor do CGL assim calculado representa efetiva necessidade de investimento. O ativo circulante contém contas transitórias (caixa, bancos, aplicações financeiras de curto prazo) e no passivo circulante também são transitórios os empréstimos e financiamentos de curto prazo, bem como os seus respectivos encargos financeiros. Essas contas transitórias (ativo e passivo flutuantes) não estão relacionadas à necessidade de investimento em capital de giro.

Para se calcular a necessidade de capital de giro de uma empresa com base em seu balanço patrimonial é necessário reclassificar algumas contas tanto do ativo como do passivo, com a finalidade específica de se proceder a esses cálculos.

Passa-se a considerar o balanço patrimonial da seguinte maneira:

Ativo Permanente (AP) – formado pelos itens de longo prazo do ativo. Esse valor é igual à soma dos seguintes itens: realizável a longo prazo, investimento, imobilizado e diferido.

Ativo Operacional (AO) – representa os recursos utilizados nas operações da empresa que dependem das características de seu ciclo operacional. É composto por duplicatas a receber, estoques e outros valores a receber que possuem natureza permanente.

Ativo Flutuante (AF) – corresponde aos itens de curtíssimo prazo do ativo circulante que possuem natureza transitória como caixa, bancos e aplicações financeiras de curto prazo.

Passivo Permanente (PP) – é formado pelas contas de longo prazo de passivo e representa a fontes permanentes de recursos financeiros da empresa. É igual à soma do exigível a longo prazo com o patrimônio líquido.

Passivo Operacional (PO) – representa as contas do passivo vinculado ao ciclo operacional da empresa, tais como fornecedores, salários, encargos, impostos, taxas e outras contas a pagar.

Passivo Flutuante (PF) – corresponde aos itens de curtíssimo prazo do passivo circulante que não têm vinculação direta com as operações da empresa. Sãos eles: empréstimos, financiamentos e outras obrigações financeiras de curto prazo.

A fórmula de cálculo da necessidade de capital de giro (NCG) é:

NCG = Ativo Operacional – Passivo Operacional

A fórmula de calculo do capital de giro líquido (CGL) é:

CGL = PASSIVO Permanente – ATIVO Permanente

O capital de giro líquido (CGL) calculado com base nessa reclassificação de contas será:

NCG = Ativo Operacional – Passivo Operacional

O resultado será o mesmo se for usada a fórmula

CGL =  Ativo Circulante – Passivo Circulante

Denomina-se efeito tesoura (ET) o valor do capital de giro líquido que excede a necessidade de capital de giro calculada na forma acima. Tal valor corresponde ainda à diferença entre o ativo flutuante (AF) e o passivo flutuante (PF)

Têm-se as seguintes fórmulas para seu cálculo:

EFEITO TESOURA = CGI – NCG

EFEITO TESOURA =Ativo Flutuante – Passivo Flutuante

Exemplo: Calcular a necessidade de capital de giro, o capital de giro líquido e o efeito tesoura com base no balanço patrimonial da empresa hipotética abaixo.

 

*Valores em Milhares de Reais

ATIVO   PASSIVO  
Caixa 100 Fornecedores 1.000
Bancos 900 Salários a Pagar 2.000
Aplic. Financeiras 2.000 Encargos a Pagar 1.000
Contas a Receber 3.000 Impostos e Taxas 1.000
Estoques 3.900 Empréstimos 2.000
Outros Valores a Rec. 100 Exigível a Longo Prazo 4.000
Realizável a Longo Prazo 2.000 Capital 7.500
Investimentos 2.000 Reservas 1.000
Imobilizado 5.500 Lucros Acumulados 500
Diferido 500    
TOTAL DO ATIVO 20.000 TOTAL DO PASSIVO 20.000

Reclassificando-se o balanço, tem-se:

ATIVO   PASSIVO  
Caixa 100 Fornecedores 1.000
Bancos 900 Salários a Pagar 2.000
Aplic. Financeiras 2.000 Encargos a Pagar 1.000
ATIVO FLUTUANTE 3.000 Impostos e Taxas 1.000
Contas a Receber 3.000 PASSIVO OPERACIONAL 5.000
Estoques 3.900 Empréstimos 2.000
Outros Valores a Rec. 100 PASSIVO FLUTUANTE 2.000
ATIVO OPERACIONAL 7.000 Exigível a Longo Prazo 4.000
Realizável a Longo Prazo 2.000 Capital 7.500
Investimentos 2.000 Reservas 1.000
Imobilizado 5.500 Lucros Acumulados 500
Diferido 500 PASSIVO PERMANENTE 13.000
ATIVO PERMANENTE 10.000    
TOTAL DO ATIVO 20.000 TOTAL DO PASSIVO 20.000

 

a) Cálculo da necessidade de capital de giro (NCG)

NCG = AO – PO

NCG = 7.000–5.000

NCG = 2.000

 

b) Cálculo do capital de giro líquido (CGL)

CGL= PP – AP

CGL= 13.000–10.000

CGL = 3.000

 

OU

 

CGL = AC – PC

CGL = 10.000–7.000

CGL = 3.000

 

c) Cálculo do efeito tesoura (ET)

ET = CGL – NCG

ET= 3.000–2.000

ET = 1.000

 

OU

 

ET = AF – PF

ET = 3.000 – 2.000

ET = 1.000

 

Reserva de Capital de Giro

O capital de giro é fortemente influenciado pelas incertezas inerentes a todo tipo de atividade empresarial. Por esse motivo, a empresa deve manter uma reserva financeira para enfrentar os eventuais problemas que podem surgir. Quanto maior for a reserva financeira alocada à manutenção do capital de giro, menores serão as possibilidades de crise financeiras, ou seja, menor será o risco de a empresa deixar de honrar seus compromissos financeiros a curto prazo, nas datas de seus vencimentos. Mais uma vez, no entanto, deve ser lembrado que somente os ativos permanentes proporcionam a  rentabilidade satisfatória para a empresa. A rentabilidade obtida pela reserva de capital de giro aplicada no mercado financeiro não constitui a atividade-fim das empresas não-financeiras.

O administrador financeiro deve buscar, portanto, um equilíbrio entre o volume necessário à manutenção da reserva de capital de giro e o valor a ser aplicado no ativo permanente da empresa. Deve lembrar, por fim, que a rentabilidade da empresa pode esperar por uma recuperação de lucros, mas que o capital de giro não pode esperar. Ele é prioritário. Sem o lucro, a empresa fica estagnada ou encolhe, porém, sem o capital de giro, ela desaparece.

Redução da Necessidade de Capital de Giro

Um ciclo financeiro curto permite maior giro de caixa, que, por sua vez, implica menor necessidade de capital de giro. O ciclo financeiro de uma empresa depende de três fatores:

Prazo de pagamento das compras, prazo de produção ou estocagem e prazo de recebimento das vendas. Os prazos de pagamento de compras e de recebimento das vendas são determinados pelas condições de mercado. Apenas alterações provisórias desses prazos poderiam ser conseguidas a partir de negociações com fornecedores e clientes. Por esse motivo, as medidas financeiras para encurtamento do ciclo financeiro são pouco eficazes.

Apenas o encurtamento do prazo de produção ou estocagem pode fazer mudanças significativas e duradouras sobre o cicio financeiro da empresa.

Essas medidas, entretanto, estão fora de escopo da área financeira, exigindo o concurso das áreas técnicas, como e produção, operação ou logística para sua implementação. Diversas técnicas podem proporcionar o encurtamento da etapa de produção ou operação da empresa, dentre as quais se pode destacar Just in Time (JIT), Administração Total da Qualidade (TQM), Supply Chain Management (SCM), Lean Production, etc…

Dos muitos problemas ocorridos com as empresas que as obrigam a recorrer a bancos e a outras instituições financeiras em busca de recursos para seu capital de giro, destacam-se:

  • Má administração da empresa em diversas áreas elevando demais os custos fixos;
  • Sazonalidade das vendas;
  • Ciclo operacional e ciclo financeiro muito longos;
  • Excesso de inadimplência por parte de clientes;
  • Empréstimos e financiamentos obtidos a custos muito elevados;